
Wellness deixou de nomear a área de lazer e passou a orientar a concepção do empreendimento. O Global Wellness Institute define wellness real estate como ambientes construídos projetados, erguidos e operados de forma proativa para sustentar a saúde integral de quem ocupa, de quem visita e da comunidade. Projeto, obra e operação. Uma academia bem equipada ocupa um pedaço disso. O resto está em onde o edifício senta no terreno, quanta vegetação fica em pé, para onde os quartos olham, quanto ruído a laje e a esquadria deixam passar e que rotina o condomínio consegue manter depois da entrega.
Em abril de 2020 publicamos aqui um texto sobre área de lazer em condomínios. Aquela lista continua válida. O que mudou foi o peso do que vem antes dela.
O instituto organiza o tema em dimensões: física, mental e espiritual, social, cívica e comunitária, ambiental, e econômica e financeira. São seis. Uma sauna cobre um pedaço da primeira. Uma área preservada dentro do terreno toca a ambiental. Nenhuma delas cabe inteira na lista de itens de lazer.
O mercado acompanhou. O setor movimentou US$ 876 bilhões no mundo em 2025, segundo dados que o Global Wellness Institute divulgou em 12 de maio de 2026, com projeção de US$ 1,8 trilhão em 2030. De 2024 para 2025, o wellness real estate cresceu 23% enquanto a construção global cresceu 3%.
Duas condições na leitura desses números. O Brasil não aparece na lista dos 15 maiores mercados nacionais publicada pelo instituto. E o dado é tamanho de mercado no mundo: mostra para onde a construção está indo, sem dizer quanto uma unidade específica vai valer amanhã.
O WELL Building Standard, do International WELL Building Institute, é o padrão internacional criado para avaliar saúde em edifício. Ele organiza a avaliação em dez conceitos: Ar, Água, Nutrição, Luz, Movimento, Conforto Térmico, Som, Materiais, Mente e Comunidade. São mais de 500 estratégias de projeto, de política e de operação baseadas em evidência, segundo o próprio instituto.
A lista já ensina. Ar trata da qualidade do ar interno ao longo de toda a vida do edifício. Luz quer ambientes de iluminação que promovam saúde visual, mental e biológica. Som trata de identificar e reduzir o que atrapalha o conforto acústico. Materiais existe para reduzir a exposição a produtos químicos durante a construção, a reforma, o mobiliário e a operação. Mente cuida do bem-estar cognitivo e emocional, e é onde a natureza aparece.
Spa, academia e piscina aquecida tocam Movimento e um pedaço de Mente. Os outros oito conceitos dependem de decisões que não aparecem no tour do decorado.

Lazer wellness do Senna Tower, no 63º andar, a 212 metros de altura. Imagem: divulgação FG Empreendimentos.
Ambiente mal ventilado contribui para dor de cabeça, fadiga, tontura, náusea, tosse, falta de ar e irritação de olhos, nariz, garganta e pele. É o que a literatura chama de síndrome do edifício doente. Edifícios ventilados naturalmente têm menos pessoas relatando esses sintomas do que edifícios só com climatização mecânica, e o padrão trata a janela que abre como estratégia de saúde.
A exposição a poluentes como compostos orgânicos voláteis, ozônio, material particulado e monóxido de carbono está associada a aumento de risco de doenças respiratórias e cardiovasculares. Temperatura está entre os itens que mais pesam na satisfação com um ambiente construído, e ambientes quentes demais aparecem ligados a sintomas da síndrome do edifício doente, ritmo cardíaco irregular, problemas respiratórios, fadiga e humor negativo. Em clima de litoral, isso se traduz em orientação solar, sombreamento, vidro especificado e ventilação que funcione sem ar-condicionado ligado o dia inteiro.
Na região, ventilação cruzada já aparece como decisão de projeto no Elbrus, da Cechinel, e no Kariió, da AYA, na Praia do Estaleiro. No Marena, da EMBRAED, a descrição do produto coloca luz natural e ventilação antes da lista de lazer.
A luz é o principal regulador do sistema circadiano, que comanda digestão, liberação de hormônios, temperatura corporal e sono. Exposição reduzida à luz está ligada ao surgimento de depressão e a prejuízo de função cognitiva. As pessoas passam cerca de 90% do tempo em ambientes fechados, o que transforma a janela em variável de saúde.
A maior análise transversal já feita sobre luz, sono, atividade física e saúde mental, segundo os próprios autores, saiu na Nature Mental Health em 2023. Foram 86.772 adultos, com a exposição à luz medida por aparelho no lugar de questionário. Quem recebeu mais luz durante o dia teve risco menor de depressão maior. Quem recebeu mais luz à noite teve risco maior. Os autores declaram o limite do achado: é associação, sem prova de causa.
Há um detalhe para quem compra apartamento de frente para outro prédio. Ambientes com janelas grandes reduzem o tempo de recuperação de pacientes com depressão grave e de pacientes em recuperação depois de infarto, na comparação com quartos cujas janelas dão para edificações ou outras obstruções. A vista desobstruída também é item de projeto de luz.
Na visita, o que se confere é simples: em que face ficam os quartos e a sala, em que horário o sol entra, e o que existe em frente hoje.
A Organização Mundial da Saúde registra, na atualização de 2022 do seu compêndio sobre saúde e meio ambiente, que o ruído excessivo aumenta o risco de doença isquêmica do coração e hipertensão, distúrbio do sono, perda auditiva, zumbido e prejuízo cognitivo. O documento recomenda exposição média abaixo de 53 dB Lden para ruído de tráfego rodoviário e abaixo de 45 dB Lnight no período noturno, indicadores que vêm de diretrizes desenvolvidas para a Região Europeia e que, segundo a própria OMS, podem ser considerados aplicáveis em outras regiões.
Dentro do edifício, o ruído chega por dois caminhos. O som que atravessa parede ou porta atrapalha e perturba o sono, e existe evidência ligando o incômodo com ruído em habitação de múltiplos pavimentos a pior saúde mental e a mais estresse percebido pelos moradores. O outro é o ruído de impacto, que nasce de passos, máquinas e equipamento de academia batendo no piso, viaja pela estrutura como vibração e volta a virar som no apartamento de baixo. O primeiro se trata com massa, vedação e esquadria. O segundo, com piso resiliente e detalhe construtivo entre pavimentos.
São itens discretos de ficha técnica que dizem mais sobre a noite de quem mora que uma foto da sauna. Nos empreendimentos da Arrka, o isolamento acústico entre os pavimentos entra na lista de técnicas construtivas. No Kariió, existe projeto acústico do empreendimento.
Plantas e luz do dia aparecem associadas a menores níveis de depressão e ansiedade, maior capacidade de atenção, melhor recuperação de estresse e de doença e maior bem-estar psicológico. O acesso a áreas verdes aparece associado a benefícios de saúde mental de curto e de longo prazo, em todas as idades. É o que coloca a área preservada na conta da saúde de quem mora, com metragem publicada ao lado da foto.
O Bravíssima Private Residence, da Taroii, na Praia Brava Norte, é cercado por uma reserva particular de patrimônio natural de 161.000 m², a RPPN Aroeira Vermelha. Na Praia do Estaleiro, o Monolyt, da Blue Heaven, ocupa 7.413,67 m², dos quais 2.654,45 m² são área de preservação permanente, em duas torres de três andares. O Kariió reserva 3.997 m² de preservação para 21.087 m² de área construída, com paisagismo do Escritório Burle Marx. E o Brava Home Resort, da PROCAVE, na Praia Brava, ocupa 75 mil metros quadrados de terreno e tem mais de 60 mil metros quadrados de área verde e de lazer.
O Brava Home foi concluído em 2015, o que situa a linha do tempo. Estrutura de bem-estar em grande escala já existia aqui antes de a palavra wellness entrar no vocabulário de venda.

Monolyt, na Praia do Estaleiro. Imagem: divulgação Blue Heaven.
A inatividade física aparece ligada a mortalidade precoce e a doenças crônicas, entre elas diabetes tipo 2, doença cardiovascular, depressão, acidente vascular cerebral, demência e algumas formas de câncer. O padrão trabalha em duas escalas. Dentro do edifício, com espaço e equipamento de atividade física disponíveis sem custo adicional. E no entorno, com caminhabilidade e conexão conveniente com transporte público.
A primeira escala a região resolveu primeiro, e a nomenclatura acompanhou. No Senna Tower, da FG Empreendimentos, na Barra Sul, o 63º andar é o Lazer 3 - Wellness, a 212 metros de altura, e o 64º é o Lazer 4 - Fitness. Na Praia Brava, em Itajaí, o Atmosphere Home Spa, da Dall, organiza a estrutura em clubes, com o Aqua Pavilion de 1.316 m² e o Athletic Club de 1.464 m². No Marena, da EMBRAED, existe uma área wellness de saúde e bem-estar, e o Hyde separa uma aba inteira para ela. No Timeless, da Arrka, um dos pavimentos de lazer se chama Wellness, e o equivalente no Azzurro se chama Spazio Benessere. A Cechinel mantém uma página institucional chamada Wellness, fora das páginas de produto.
A segunda escala costuma ficar de fora da conversa no decorado. Trilha de caminhada dentro do condomínio, como a do Brava Home Resort, resolve parte. O resto depende do que existe fora do portão, a pé. Padaria, farmácia, praça, orla, escola. Uma academia completa em um lugar onde tudo se resolve de carro cobre só uma parte do conceito.
Vale separar duas coisas que o folder junta. Uma é o espaço construído. A outra é a operação que acontece nele, com equipe, horário e custo. Um spa sem terapeuta é uma sala bonita.

Sauna seca da área wellness do Hyde. Imagem: divulgação EMBRAED.
Densidade por andar muda o dia de quem mora. O hall passa a servir uma só unidade. A parede compartilhada com vizinho do mesmo andar desaparece, o que é acústica. E cresce a chance de ventilação cruzada e de luz em mais de uma face, o que é ar e luz.
Em Balneário Camboriú essa decisão tem história. O Millennium, da FG, entregue em 2014 na Avenida Atlântica, já era 36 apartamentos, um por andar, em 44 pavimentos. Hoje o Santé Boutique Residence, da EMBRAED, no bairro Pioneiros, tem 36 apartamentos em 45 pavimentos, um por andar. O Copenhagen, da Cechinel, adota o mesmo conceito, com 41 apartamentos em 51 pavimentos. Na Praia Brava, o Atmosphere trabalha com duas residências por andar.
A solução de planta já existia. O que mudou foi a leitura dela. Privacidade passou a ser tratada como item de saúde, ao lado de silêncio, luz e ar. O WELL tem um item dedicado a espaços de restauração, de alívio da fadiga mental e do estresse. Dentro de um apartamento, isso se chama ter um lugar silencioso para ficar. Nas áreas comuns, começa a aparecer com nome próprio: no Elbrus, da Cechinel, o Garden Restaurador é descrito como um refúgio de tranquilidade em meio à natureza.
Segundo a AYA Empreendimentos, a Praia do Estaleiro está inserida em uma Área de Proteção Ambiental, sob masterplan assinado por Jaime Lerner, com altura máxima de 11,5 metros para as edificações e exigência de que, no mínimo, 60% da área total de cada terreno seja preservada com vegetação nativa.
Esses dois números explicam o que nasce lá. Com teto de 11,5 metros, o projeto cabe em poucos pavimentos. Com a exigência de 60% de vegetação nativa, a área construída fica cercada de mata por regra. Baixa densidade e mata em pé viram característica do lugar, com efeito sobre ruído, luz, ventilação e contato com natureza. É outro caminho para o mesmo conceito de bem-estar, diferente do da orla verticalizada. O que serve melhor depende da rotina de quem vai morar.
O WELL distribui pontos por desempenho em política, projeto e operação, classifica em quatro níveis, Bronze, Silver, Gold e Platinum, e inclui verificação no local por prestadores de teste de desempenho. Existe um programa voltado a residências, que cobre unidades em edifícios multifamiliares, e um processo simplificado criado com o USGBC para quem busca o WELL e o LEED na versão 4.1.
A distinção que mais confunde comprador é entre pré-certificação e selo emitido. No WELL, a pré-certificação é interina e comunica progresso. Ela exige todas as precondições e pontos suficientes para o nível mais baixo, não diferencia nível acima desse mínimo e acontece antes da verificação de desempenho. O selo vem depois dela.
Na região, esse vocabulário já circula. A Cechinel publica que o Elbrus é o primeiro residencial do Brasil com pré-certificação LEED Platinum, e que o empreendimento também busca a certificação WELL. A própria empresa explica a diferença entre os dois selos. A LEED olha sustentabilidade e eficiência energética. A WELL avalia como o design, a construção e as operações de um edifício impactam a saúde e o conforto dos ocupantes. A FG informa que o Senna Tower receberá o selo LEED Platinum.
Diante de qualquer anúncio desse tipo, três perguntas resolvem: qual padrão, qual nível e qual o ano. Com as três respostas, a conferência é direta no registro público de quem emite o selo. Sem elas, o que existe é uma intenção de projeto, que pode ser excelente, e que ainda não é um selo.
Os números do Global Wellness Institute descrevem um mercado mundial. Eles não dizem quanto uma unidade específica em Balneário Camboriú ou na Praia Brava vai valer daqui a cinco anos, e nós não trabalhamos com esse tipo de promessa. O que dá para afirmar é o outro lado da conta. Conforto térmico, silêncio, luz natural e privacidade são percebidos na rotina, todos os dias, muito depois da assinatura. E dependem de decisões tomadas antes da fundação.
Sete perguntas resolvem boa parte da conversa:
Bem-estar em imóvel se confere na planta, na especificação e na rotina. Em mais de dez anos atendendo compradores em Balneário Camboriú e na Praia Brava, foram perguntas desse tipo que mudaram decisão de compra. A TONADRI acompanha todo o processo de documentação da venda, para quem compra e para quem vende.
Quer avaliar um empreendimento com esse olhar antes de decidir? Fale com a TONADRI.
TONADRI | Adriana Amorim · CRECI J 4440
Fontes: Global Wellness Institute · International WELL Building Institute · Organização Mundial da Saúde · Nature Mental Health · Cechinel · FG Empreendimentos · EMBRAED · Arrka · Atmosphere Home Spa · PROCAVE · AYA Empreendimentos · Blue Heaven · Taroii
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